Andre Breton :
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andré breton / as atitudes espectrais
Não dou nenhuma importância à
vida
Não pego com alfinetes na
importância a mais ínfima borboleta de vida
Não importo à
vida
Mas os veios do sal os veios
brancos
Todas as bolhas de
sombra
E as anémonas do
mar
Descem e respiram dentro do meu
pensamento
Vêm das lágrimas que não
verto
Dos passos que não dou passos
duas vezes passos -
Na memória da areia ao encher da
maré
As grades estão no interior da
gaiola
E os pássaros vêm das maiores
a1turas cantar diante delas
Uma passagem subterrânea une
todos os perfumes
A mulher que lá entrou um
dia
Tornou-se tão brilhante que não
a vi
Com estes olhos que a mim mesmo
viram arder
Tinha já a idade que hoje
tenho
E vigiava-me vigiava o meu
pensamento como um guarda-nocturno numa fábrica sem fim
Só eu
vigiava
A praça continuava a encantar os
mesmos eléctricos
As figuras de gesso nada haviam
perdido da sua expressão
Mordiam a figa do
sorriso
Sei de um tecido numa cidade
perdida
Se me apetecesse aparecer-vos
vestido desse pano
Imaginariam chegado o vosso
fim
E o meu
Enfim as fontes saberiam que não
se deve dizer Fontaine
Atraem-se os lobos com espelhos
de neve
Tenho uma barca solta de todos
os climas
Sou arrastado por um banco de
gelo de dentes flamejantes
Corto e racho a lenha desta
árvore sempre verde
Um músico ata-se às cordas do
seu instrumento
O Pavilhão Negro do tempo de
nenhuma história de infância
Aborda um navio que não passa do
fantasma do seu
Há talvez uma bainha para esta
espada
Mas nesta bainha existe já um
duelo
Em que os dois adversários se
desarmam
o morto é o menos
ofendido
o futuro não é
nunca
As cortinas jamais corridas
Tremulam nas janelas por
construir
As camas feitas de todas as
flores-de-lis
Resvalam sob os candeeiros de
orvalho
Uma noite
virá
As pepitas de luz imobilizam-se
no musgo azulado
As mãos que fazem e desfazem os
nós do amor e do ar
Mantêm a transparência para quem
vê
As palmas sobre as
mãos
As auréolas nos
olhos
Mas o braseiro das auréolas e
das palmas
Acende-se começa a arder no ermo
da floresta
Lá onde os cervos inclinam a
cabeça para ver passar os anos
Ainda só se ouve uma fraca
pulsação
A gerar mil rumores mais leves
ou mais surdos
E esta pulsação
perpetua-se
Há vestidos
vibrantes
Vibração em uníssono com a
pulsação
Mas quando quero ver as caras
das que os vestem
Uma grande névoa levanta-se da
terra
Por baixo do campanário atrás
dos mais elegantes reservatórios de vida e de riqueza
Nas gargantas que escurecem
entre duas montanhas
No mar à hora de arrefecer o
sol
As estrelas separam os seres que
me acenam
Mas o carro lançado a toda a
desfilada
Leva-me as hesitações até à
última
Que me espera lá longe na cidade
onde as estátuas de bronze e de pedra trocam de lugar com as estátuas de
cera
Banians
banians
Le Revolver à cheveux blancs (1932)
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