quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - João Cabral de Melo Neto

.
"O profissional da memória" - João Cabral de Melo Neto :
.
.


Passeando presente dela

pelas ruas de Sevilha,

imaginou injetar-se

lembranças, como vacina,


para quando fosse dali

poder voltar a habitá-las,

uma e outras, e duplamente,

a mulher, ruas e praças.


Assim, foi entretecendo

entre ela, e Sevilha fios

de memória, para tê-las

num só e ambíguo tecido;


foi-se injetando a presença

a seu lado numa casa,

seu íntimo numa viela,

sua face numa fachada .


Mas desconvivendo delas,

longe da vida e do corpo,

viu que a tela da lembrança

se foi puindo pouco a pouco;


já não lembrava do que

se injetou em tal esquina,

que fonte o lembrava dela,

que gesto dela, qual rima.


A lembrança foi perdendo

a trama exata tecida

até um sépia diluído

de fotografia antiga.


Mas o que perdeu de exato

de outra forma recupera:

que hoje qualquer coisa de um

traz da outra sua atmosfera.

Sem comentários:

Enviar um comentário