.
Em tempos trabalhei num escritório, e costumava almoçar num self-service que existia por lá perto.
Por vezes vinha sentar-se na mesma mesa, um sujeito pela minha idade, que mal chegava, começava logo a desfiar um rosário de queixas contra o seu Patrão : Segundo ele, trabalhava para uma pessoa que nem conhecia (a quem chamava "O Velho" - apenas por lhe parecer que as ordens que cumpria deviam provir de alguém com bastante idade), mas que lhe eram transmitidas por uma sua Secretária - o braço-direito do "Velho".
O motivo da sua insatisfação prendia-se com o facto de, as missões que lhe eram confiadas, nunca serem apresentadas de forma directa mas, antes, por charadas de difícil resolução.
Cansado de escutar os seus queixumes e porque os enigmas sempre me fascinaram, comecei a pedir-lhe exemplos das charadas que andavam a preocupa-lo, e a dar-lhe palpites para a sua resolução.
À nossa mesa vinha, por vezes, sentar-se a tal Secretária, que deve ter começado a achar piada às soluções que eu propunha; decerto comunicou algumas ao seu Patrão que, sempre em busca de alguém a quem pudesse aumentar a dificuldade dos seus enigmas, lhe mandou oferecer-me o dobro do vencimento que então auferia, se quisesse ir trabalhar com eles.
Até então, sempre tinha pensado que devia ser aborrecido trabalhar sem instruções directas (e até sentia, por vezes, pena do meu companheiro-de-mesa); mas, porque as charadas eram um verdadeiro desafio, porque estava cansado da rotina-burocrática do meu escritório e porque uma duplicação de ordenado não podia recusar-se, decidi arriscar.
Mal me apresentei, já tinha à minha espera um delicada missão : mediante a minha assinatura, de um compromisso em nunca revelar a ninguém os procedimentos internos da Casa, deram-me uma senha que permitia viajar no elevador do prédio até à cobertura deste (comecei, então, a compreender melhor o constante stress que sempre apresentava o meu agora colega pois, mal tinha começado e já estava a encontrar demasiados segredos para meu gosto). Mas, quando saí do elevador para aquele piso-secreto, a minha boca ainda mais se abriu de espanto : em formatura, encontravam-se lá estacionadas várias cápsulas muito estranhas; acerquei-me de uma, que ostentava o meu número de código e reparei num manual de instruções que se encontrava pendurado na porta; após te-lo folheado verifiquei que se tratava de um equipamento tele-transportador; abri a porta e instalei-me no seu espaçoso interior, junto aos comandos da engenhoca; estes eram constituídos, apenas, por um mostrador onde se registavam as coordenadas do local de destino (embora muitas já estivessem pré-programadas, incluindo a daquele local de retorno), e de um ecrã-táctil onde surgiam as instruções/enigmas para resolução; também permitia consultas à Net pois, dado que não era necessário comandar a nave, e apesar do pouco tempo que gastava nos percursos, poderia - entretanto - utilizar-se este monitor para a resolução de charadas.
Dado o número de naves que encontrei, e pelos objectos que decoravam algumas delas, verifiquei que para além de mim e do meu companheiro-de-mesa, existiam vários outros Agentes, nomeadamente femininos - talvez para aproveitarem o seu apurado 6º sentido. Vim a verificar, posteriormente que, se existiam missões em que apenas participava um Agente, noutras era formada uma "alcateia" em que, embora cada um tentasse resolver a seu modo os problemas propostos, numa saudável competição, todos acabavam por trabalhar para um objectivo comum de entre-ajuda.
Talvez por ser a minha primeira missão (para que pudesse enquadrar-me, desde logo, com os meus Colegas), este foi um desses casos :
Um a um foram chegando outros/as colegas que, depois de me cumprimentarem desejando-me as boas-vindas, se instalaram nas suas cápsulas; No écran destas começou, então, a ser projectado um documentário sobre a utilização de cães, como cobaias, na industria de cosméticos; nele se afirmava que estas empresas mantinham os animais em locais dissimulados, para evitarem represálias de ambientalistas; findo o mesmo, o desafio lançado foi encontrarmos, no equipamento com que as nossas naves estavam equipadas, formas de localizarmos esses locais de experiências secretos (o primeiro a consegui-lo, deveria comunicar as coordenadas a todos os restantes). Lancei-me, então, na exploração das particularidades dos equipamentos disponíveis: havia, por exemplo, um detector de ultra-sons, mas lembrei-me de ver no documentário que, essas empresas, anulavam as cordas vocais das cobaias, para não serem incomodadas pelos seus ganidos, pelo que aquele equipamento não teria grande utilidade neste caso. Continuei as minhas pesquisas e acabei por descobrir um detector de odores bastante sofisticado : fornecendo-lhe o perfume de cosméticos, juntamente com o cheiro de cães há muito tempo enjaulados, depois de sobrevoar vaias áreas isoladas, apareceram a piscar no écran as coordenadas desejadas; Comunicadas estas à Central, logo começaram a surgir, de todos os lados, as cápsulas de outros colegas.
O próximo desafio logo surgiu : como neutralizar os alarmes e penetrar nas instalações ? através de raios infra-vermelhos verifiquei que existiam alarmes nas portas, mas não no telhado do pavilhão onde se encontravam as cobaias; Constatei que uma das cápsulas estava equipada com um potente feixe de raios-laser e, obtida autorização, foi essa cápsula utilizada para anular a soldadura as juntas do telhado; Com a acção conjunta dos guinchos de várias cápsulas pairando estrategicamente, foi possível levantar e deslocar o telhado; Agentes de outras cápsulas, descendo em guinchos equipados com cestas, chegavam às gaiolas, libertavam os animais e metiam-nos nas cestas que faziam subir para as cápsulas; As naves que se encontravam a segurar o telhado, voltaram a coloca-lo e a solda-lo na sua posição.
Recolhidas todas as cobaias, subsistia ainda um problema : para onde leva-las? Feita uma pesquisa na Net, descobriu-se uma Associação Protectora de Animais, que possuía uma espécie de colónia de recuperação, equipada com Clínica-veterinária; Depois de recuperados os animais, conforme as suas características, eram ensinados a serem úteis à Sociedade : quer como companhia, como guardas, na detecção de substâncias suspeitas, em missões de salvamento, como cães-pastores, guias para invisuais, etc.; e, com a cedência destes animais-especializados custeavam as despesas de manutenção da Colónia.
Contactada aquela Associação, fomos autorizados a lá ir depositar os nossos resgatados.
No regresso, por um lado, sentia a satisfação do dever cumprido; mas, por outro, pensava se o aumento de ordenado justificaria a ausência de horários e a prontidão a qualquer dia da semana ou do mês; Na realidade, de tão ocupado que tinha andado na execução das tarefas requeridas, até me esquecera de comer (embora as cápsulas dispusessem de um compartimento refrigerado, equipado com vários tipos de alimentos). Lembrei-me por exemplo que, naquele dia, a minha Mãe fazia anos mas, àquela hora tardia, já não dava para chegar a sua casa antes de se ir deitar; O uso da cápsula para esse fim estava fora de questão pois, até para a sua utilização em serviço em rotas não programadas, era necessária autorização da Central; Mal tinha acabado de desfiar estes pensamentos, apareceram no écran da cápsula as coordenadas da casa de minha velhota e, num ápice, já me encontrava nas redondezas; Pensei, ainda, que de pouco valia chegar a tempo de dar-lhe os parabéns, se não tinha tido possibilidade de comprar-lhe qualquer lembrança; Eis senão quando, o compartimento-refrigerado da cápsula abriu-se, e lá encontrei um belo embrulho, contendo uma caixa com os seus bom-bons preferidos. Foi com muita alegria que ela verificou que, afinal, não me tinha esquecido do seu aniversário, e ia conseguir proporcionar-lhe um resto de dia muito Feliz.
Aprendi, com esta lição, que "há que saber dar tempo ao Tempo" ...
.
.
NelitOlivas

Sem comentários:
Enviar um comentário