Como as plantas melindrosas
A amizade quer cultura:
Se não, faz-se como as rosas,
Quando perdem a frescura.
Nasce e cresce lentamente;
Devagar, deita raízes;
Mas, depois de bem frondente,
Como abriga os infelizes!...
Quanto mais velha mais bela,
Se foi sempre sem mudança;
E livrar que, à sombra dela,
Possa haver desconfiança.
A suspeita_ mal terrível!
Quando a vê, lhe abre o jazigo.
E nada mais detestável
Que o sorrir de um falso amigo.
Corações bem cristalinos
É onde ela robustece,
Onde dá frutos divinos,
Onde a flor jamais perece.
E criada em peito amante,
Mais que amor deve ser cara,
Pois se é raro o amor constante
A amizade ainda é mais rara.
. (retirado, com a devida vénia, de "rumor de asas")
E eu teria me afastado de tua porta fechada e vermelha
A que ninguém abriria
Com tua carta na mão,
Um raio que não conseguiu chegar à terra.
Isso para mim teria sido um tratamento de choque
Que se repetiria durante todo o final de semana
Quando eu a lesse ou nela simplesmente pensasse.
Isso teria reordenado meu pensamento e minha vida
O tratamento que planejavas necessitava de tempo
Não posso imaginar como
Teria suportado aquele fim de semana.
Não posso imaginar. Tinhas já tudo planejado?
Tua mensagem chegou bem depressa até mim – no mesmo dia,
Sexta à tarde, postada pela manhã.
Expediram-na os demônios que sempre prevalecem
Esse foi mais um dos lances de má sorte
Que contra ti cometeu o correio
E que se acrescentou a teu fardo. Saí rapidamente pela neve
Já azulada em fevereiro. Anoitecia em Londres.
Chorei de alívio quando abriste a porta.
Confusão de enigmas em solução. Lágrimas precoces
Que não pude interpretar, que fracassaram ao comunicar
Sua verdadeira importância. Porém, o que disseste
Sobre as cinzas ainda fumegantes dessa carta
Destruída com tanto cuidado, com tanta calma,
Permitiu que eu partisse, que eu te deixasse
Para soprares as cinzas de teu plano, do cinzeiro
Sobre o qual te debruçarias para que eu lesse
O número de telefone do médico
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1 Na linguagem fotográfica chama-se dupla ou tripla exposição quando a película é exposta, mais de uma vez, a imagens diferentes, que se sobrepõem. Trata-se de efeito artístico que gera uma aura fantasmagórica na fotografia. [N. do T.]
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(retirado, com a devida vénia, de "Academia Brasileira de Letras")
circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá
soando como um shamisen e feito apenas com um arame tenso um cabo e uma lata velha num fim de festafeira no pino do sol a pino mas para outros não existia aquela música não podia porque não podia popular aquela música se não canta não é popular se não afina não tintina não tarantina e no entanto puxada na tripa da miséria na tripa tensa da mais megera miséria física e doendo doendo como um prego na palma da mão um ferrugem prego cego na palma espalma da mão coração exposto como um nervo tenso retenso um renegro prego cego durando na palma polpa da mão ao sol…
[circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá]
… o povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol …
[circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu circuladô de fulô e ainda quem falta me dá]
… e não peça que eu te guie não peça despeça que eu te guie desguie que eu te peça promessa que eu te fie me deixe me esqueça me largue me desamargue que no fim eu acerto que no fim eu reverto que no fim eu conserto e para o fim me reservo e se verá que estou certo e se verá que tem jeito e se verá que está feito que pelo torto fiz direito que quem faz cesto faz cento se não guio não lamento pois o mestre que me ensinou já não dá ensinamento …
[circuladô de fulô ao deus ao demodará que deus te guie porque eu não posso guiá eviva quem já me deu]
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(retirado, com a devida vénia, de "Vicio da Poesia")
A cierto autor leía hasta muy tarde era ya media noche y tuve miedo. ¿Miedo de qué ?, no sé, pero fue horrible. Presentí entre jadeos y estertores Que pronto iba a pasar algo terrible... Detrás de mí, creí sentir entonces una rara presencia a mis espaldas con una risa atroz y muy nerviosa : mas no escuchaba nada, ¡Qué tortura ! Sentir que alguien tocaba mis cabellos, con su mano llegando hasta mi hombro, sentir que iba a morir si lo escuchaba. Cada vez más cercano se inclinaba y yo para salvarme no quería dar vuelta mi cabeza, ni moverme... Giraban con horror mis pensamientos como aves en un cielo de tormenta, un sudor frío congelaba el cuerpo y en aquel cuarto sólo se escuchaba castañetear mis dientes atrozmente. .
Y de repente se escuchó un crujido y di un grito de horror enloquecido como nunca se oyó salir de un pecho, para caer de espaldas, yerto y tieso.
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(retirado, com a devida vénia, de IES A Xunqueira I)
Manhã de Junho ardente. Uma encosta escavada, Sêca, deserta e nua, à beira d'uma estrada. Terra ingrata, onde a urze a custo desabrocha, Bebendo o sol, comendo o pó, mordendo a rocha.
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Sôbre uma folha hostil duma figueira brava, Mendiga que se nutre a pedregulho e lava,
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A aurora desprendeu, compassiva e divina, Uma lágrima etérea, enorme e cristalina.
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Lágrima tão ideal, tão límpida, que ao vê-la, De perto era um diamante e de longe uma estrêla.
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Passa um rei com o seu cortejo de espavento, Elmos, lanças, clarins, trinta pendões ao vento.
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- "No meu diadema, disse o rei, quedando a olhar, Há safiras sem conta e brilhantes sem par,
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"Há rubins orientais, sangrentos e doirados, Como beijos d'amor, a arder, cristalizados.
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"Há pérolas que são gotas de mágua imensa, Que a lua chora e verte, e o mar gela e condensa.
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"Pois, brilhantes, rubins e pérolas de Ofir, Tudo isso eu dou, e vem, ó lágrima, fulgir
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"Nesta c'roa orgulhosa, olímpica, suprema, Vendo o Globo a teus pés do alto do teu diadema!"
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E a lágrima deleste, ingénua e luminosa, Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.
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Couraçado de ferro, épico e deslumbrante, Passa no seu ginete um cavaleiro andante.
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E o cavaleiro diz à lágrima irisada: "Vem brilhar, por Jesus, na cruz da minha espada!
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"Far-te hei relampejar, de vitória em vitória, Na Terra Santa, à luz da Fé, ao sol da Glória!
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"E à volta há-de guardar-te a minha noiva, ó astro, Em seu colo auroreal de rosa e de alabastro.
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"E assim alumiarás com teu vivo esplendor Mil combates de heróis e mil sonhos d'amor!"
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E a lágrima celeste, ingénua e luminosa, Ouviu, sorriu, tremeu e quedou silenciosa.
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Montado numa mula escura, de caminho, Passa um velho judeu, avarento e mesquinho.
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Mulas de carga atrás levavam-lhe o tesoiro: Grandes arcas de cedro, abarrotadas d'oiro.
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E o velhinho andrajoso e magro como um junco, O crânio calvo, o olhar febril, o bico adunco,
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Vendo a estrêla, exclamou: "Oh Deus, que maravilha! Como ela resplandece, e tremeluz, e brilha!
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"Com meu oiro em montão podiam-se comprar Os impérios dos reis e os navios do mar,
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"E por esse diamante esplêndido trocara Todo o meu oiro imenso a minha mão avara!"
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E a lágrima celeste, ingénua e luminosa, Ouviu, sorriu, tremeu, e quedou silenciosa.
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Debaixo da figueira, então, um cardo agreste, Já ressequido, disse à lágrima celeste:
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"A terra onde o lilaz e a balsamina medra Para mim teve sempre um coração de pedra.
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"Se a queixar-me, ergo ao céu os braços por acaso, O céu manda-me em paga o fogo em que me abraso.
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"Nunca junto de mim, ulcerado de espinhos, Ouvi trinar, gorgear a música dos ninhos.
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"Nunca junto de mim ranchos de namoradas Debandaram, cantando, em noites estreladas...
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"Voa a ave no azul e passa longe o amor, Porque ai! Nunca dei sombra e nunca tive flor!...
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"Ó lágrima de Deus, ó astro, ó gota d'água, Cai na desolação desta infinita mágoa!"
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E a lágrima celeste, ingénua e luminosa, Tremeu, tremeu, tremeu... e caíu silenciosa!...
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E algum tempo depois o triste cardo exangue, Reverdecendo, dava uma flor côr de sangue,
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Dum roxo macerado, e dorido, e desfeito, Como as chagas que tem Nosso Senhor no peito...
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E ao cálix virginal da pobre flor vermelha Ia buscar, zumbindo, o mel doirado a abelha!...
O que a minha mãe dizia Não pode ser bem verdade: Que uma vez emporcalhada Nunca passa a sujidade. Se isto não vale pra a roupa Também não vale pra mim. Que o rio lhe passe por cima Breve fica branca, assim.
2
Como qualquer pataqueira Aos onze anos já pecava. Mas só ao fazer catorze O meu corpo castigava. A roupa já estava parda, No rio a fui mergulhar. No cesto está virginal C'mo sem ninguém lhe tocar.
3
Sem ter conhecido algum Já eu tinha escorregado. Fedia aos Céus, como uma Babilónia de pecado. A roupa branca no rio Enxaguada à roda, à roda, Sente que as ondas a beijam: «Volta-me a brancura toda».
4
Quando o primeiro me amou Abracei-o eu também. Senti no ventre e no peito Ir-se a maldade pra além. Assim acontece à roupa E a mim acontecerá. A água corre depressa, Sujidade diz: Vem cá!
5
Mas quando os outros vieram Um ano mau começou. Chamaram-me nomes feios, Coisa feia agora sou. Com poupanças e jejuns Nenhuma mulher se acalma. Roupa guardada na arca, Na arca se não faz alva.
6
E veio depois um outro No ano que se seguiu. Vi que me fazia outra Com o tempo que fugiu. Mete-a na água e sacode-a! Há sol, cloreto e vento! Usa-a, dá-a de presente: Fica fresquinha a contento.
7
Bem sei: Muito pode vir 'Té que nada por fim. fica. Só quando ninguém a usa A roupa se sacrifica. E uma vez que apodreça Nenhum rio a embranquece. Leva-a consigo em farrapos.
É Noite! as sombras correm nebulosas. Vão três pálidas virgens silenciosas Através da procela irrequieta. Vão três pálidas virgens... vão sombrias Rindo colar num beijo as bocas frias...
Na fronte cismadora do Poeta: "Saúde, irmão! Eu sou a Indiferença. Sou eu quem te sepulta a idéia imensa, Quem no teu nome a escuridão projeta... Fui eu que te vesti do meu sudário... Que vais fazer tão triste e solitário?..."
- "Eu lutarei!" - responde-lhe o Poeta. "Saúde, meu irmão! Eu sou a Fome. Sou eu quem o teu negro pão consome... O teu mísero pão, mísero atleta! Hoje, amanhã, depois... depois (qu'importa?) Virei sempre sentar-me à tua porta..."
-"Eu sofrerei"-responde-lhe o Poeta. "Saúde, meu irmão! Eu sou a Morte. Suspende em meio o hino augusto e forte. Marquei-te a fronte, mísero profeta! Volve ao nada! Não sentes neste enleio Teu cântico gelar-se no meu seio?!" -"Eu cantarei no céu" - diz-lhe o Poeta!
Não tem porta nem trinco, Tudo ele vence e vaza. Sem princípio, bateu E eternamente bate Suas eternas asas. . .(retirado, com a devida vénia, de "Amor Através do Tempo")
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Estranho é caminhar na densa névoa:
Solitária esta cada planta ou pedra,
Nenhum arbusto enxerga o seu vizinho,
Cada um está só.
Cheio de amigos era, para mim, o mundo
Quando luminosa ‘inda era minha vida;
Agora que a névoa caiu,
Ninguém mais é visível.
Não é deveras um sábio
Quem não conhece a escuridão
Que, suavemente, nos separa
De tudo inexorável.
Estranho é caminhar na densa névoa:
Viver é estar solitário
Entre gente que se ignora.
Todos estamos sós!
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Preguntáis si el amor hace feliz; lo promete, creedle, aún por un día. ¡Ah! por un día de vida amorosa... ¿quién no moriría? La vida está en el amor... Sin él, tu corazón es un hogar sin llama; él todo lo quema, dulce veneno. He dicho en verdad como destroza un alma: ¡Preguntad pues si da la felicidad...! Cuando se lo ha conocido, su ausencia es espantosa; cuando vuelve, se tiembla noche y día... A veces, en fin, la muerte está en el amor y sin embargo... ¡SÍ, EL AMOR HACE FELIZ!