segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Bertolt Brecht

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Bertolt Brecht :

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Canção da Inocência Perdida :

O que a minha mãe dizia 
Não pode ser bem verdade: 
Que uma vez emporcalhada 
Nunca passa a sujidade. 
       Se isto não vale pra a roupa 
       Também não vale pra mim. 
       Que o rio lhe passe por cima 
       Breve fica branca, assim. 



Como qualquer pataqueira 
Aos onze anos já pecava. 
Mas só ao fazer catorze 
O meu corpo castigava. 
       A roupa já estava parda, 
       No rio a fui mergulhar. 
       No cesto está virginal 
       C'mo sem ninguém lhe tocar. 



Sem ter conhecido algum 
Já eu tinha escorregado. 
Fedia aos Céus, como uma 
Babilónia de pecado. 
       A roupa branca no rio 
       Enxaguada à roda, à roda, 
       Sente que as ondas a beijam: 
       «Volta-me a brancura toda». 



Quando o primeiro me amou 
Abracei-o eu também. 
Senti no ventre e no peito 
Ir-se a maldade pra além. 
       Assim acontece à roupa 
       E a mim acontecerá. 
       A água corre depressa, 
       Sujidade diz: Vem cá! 



Mas quando os outros vieram 
Um ano mau começou. 
Chamaram-me nomes feios, 
Coisa feia agora sou. 
       Com poupanças e jejuns 
       Nenhuma mulher se acalma. 
       Roupa guardada na arca, 
       Na arca se não faz alva. 



E veio depois um outro 
No ano que se seguiu. 
Vi que me fazia outra 
Com o tempo que fugiu. 
       Mete-a na água e sacode-a! 
       Há sol, cloreto e vento! 
       Usa-a, dá-a de presente: 
       Fica fresquinha a contento. 



Bem sei: Muito pode vir 
'Té que nada por fim. fica. 
Só quando ninguém a usa 
A roupa se sacrifica. 
       E uma vez que apodreça 
       Nenhum rio a embranquece. 
       Leva-a consigo em farrapos. 

  Um dia assim te acontece. 
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(retirado, com a devida vénia, de "Citador")

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