sábado, 30 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Léo Ferré

.

Avec le temps – Léo Ferré :

.
.
Com o tempo tudo vai embora
Esquecemos o rosto e esquecemos a voz
O coração, quando deixa de bater, já não vale a pena ir
Procurar mais longe é preciso deixar e tudo bem
Com o tempo
Com o tempo tudo vai embora
O outro que adorávamos que procurávamos à chuva
O outro que imaginávamos na sombra de um olhar
Entre as palavras nas entrelinhas e no cansaço
De um sermão maquiado que segue para a noite
Com o tempo tudo desvanece
Com o tempo
Com o tempo tudo vai embora
Mesmo as recordações mais ternas tem um desses momentos
Na galeria eu vasculho as prateleiras da morte
No sábado à noite quando a ternura parte sozinha
Com o tempo
Com o tempo tudo vai embora
O outro em que acreditávamos por um frio, por um nada
O outro a quem dávamos o vento e joias
Por quem teríamos vendido a alma por algumas moedas
À frente de quem rastejávamos como rastejam os cães
Com o tempo tudo se resolve
Com o tempo
Com o tempo tudo vai embora
Esquecemos as paixões e esquecemos as vozes
Que sussurravam palavras de gente pobre
Não volte muito tarde, sobretudo não apanhe frio
Com o tempo
Com o tempo tudo vai embora
E sentimo-nos pálidos com um cavalo cansado
E sentimo-nos gelados numa cama ao relento
E sentimo-nos sós, mas talvez conformados
E sentimo-nos enganados pelos anos perdidos
Então verdadeiramente
Com o tempo deixamos de amar.
(retirado, com a devida vénia, de "Minhas Poesias Preferidas")

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Mário Raínho

.
Mário Raínho :
.

.

Origem de Mário Raínho
.
(retirado com a devida vénia, de "Molduras de Poemas de Fado")
.
Pelo tempo das cerejas de Mário Raínho
.
(retirado, com a devida vénia, de "Amália, a Poesia & os Poetas")

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ludovico Ariosto

.

Ludovico Ariosto :

.

.
Soneto XXV :
Que bela sois, senhora! Tanto, tanto,
que por mim nunca vi cousa mais bela!
Contemplo a fronte e penso que uma estrela
a meu caminho dá seu brilho santo.
Contemplo a boca e pairo no encanto
do sorriso tão doce que é só dela;
olho o cabelo de ouro e vejo aquela
rede que amor me impôs com terno canto.
É de terso alabastro o colo, o peito,
os braços mais as mãos, e finalmente
quanto de vós se vê ou se adivinha.
E embora seja tudo assim perfeito,
permiti que vos diga ousadamente:
mais perfeita era a fé que em vós eu tinha.
Tradução de David Mourão-Ferreira
.
(retirado, com a devida vénia, de "Vicio da Poesia")

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Alexandre Vargas

.
Alexandre Vargas :


Deus, num ápice :


Levanta-se Deus não bebe o leite das galáxias
mas café forte da negra noite circundante
e sumo solar em planetas e laranjas
com ovos estrelados céu translúcido de glória.

No prato cósmico espeta o garfo de Neptuno
e de Vulcano esquenta logo o banho rápido
nebuloso espírito paira prévio sobre as águas
depois do vinho e pão, outros deuses mesmo lume.

Leva a bandeja para a cozinha fica diante
da mesa de ardósia a barca o diário
que regista, ouvindo as notícias da rádio:

“No princípio era o Verbo”, transcreve para o livro do dia antes
de tirar o sobretudo da cruzeta, sair à pressa,
cria Deus o universo num verso.
.
(retirado, com a devida vénia, de "Serpente Emplumada")

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Frédéric Mistral

.

Frédéric Mistral :

.
.


.

Mirèio (excerto):

1

.
I.
.
LOTUS FARM
.

I sing the love of a Provençal maid;
How through the wheat-fields of La Crau'' she strayed,
FoUowing the fate that drew her to the sea.
TJnknown beyond remote La Crau was she;
.
And I, whotell the rustic taie of her,
Would fain be Homer's humble follower.
What though youth's auréole was her only crown?
And nevergold she wore nor damask gown ?
.
I'11 build her up a throne out of my song,
And bail her queenin our despisèd tongue.
Mine be the simple speech that ye ail know,
Shepherds and farmer-folk of lone La Crau.
.
...
.
(retirado, com a devida vénia, de "Scribd")

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Vasco de Lima Couto

.

Vasco de Lima Couto :

.


.

Disse-te Adeus e morri :



Disse-te adeus e morri
E o cais vazio de ti
Aceitou novas marés.
Gritos de búzios perdidos
Roubaram dos meus sentidos
A gaivota que tu és.

Gaivota de asas paradas
Que não sente as madrugadas
E acorda à noite a chorar.
Gaivota que faz o ninho
Porque perdeu o caminho
Onde aprendeu a sonhar.

Preso no ventre do mar
O meu triste respirar
Sofre a invenção das horas,
Pois na ausência que deixaste,
Meu amor, como ficaste,
Meu amor, como demoras.
.
(retirado, com a devida vénia, de "Palavras que me tocam")

domingo, 24 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Juliusz Slowacki

.
Juliusz Slowacki :
.

.

"A tristeza é um livro sábio que se tem no coração e que nos diz centenas de coisas - impede-nos de apodrecer como um cogumelo debaixo de uma árvore; pouco a pouco vai fabricando uma provisão de ensinamentos para a vida."ida 
.
(retirado, com a devida vénia, de "Citador")

sábado, 23 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - João Cabral de Melo Neto

.

João Cabral de Melo Neto :

.

.

A Vicente do Rego Monteiro (João Cabral de Melo Neto - 1920-1999)

Eu vi teus bichos
mansos e domésticos:
um motociclo
gato e cachorro.
Estudei contigo
um planador,
volante máquina,
incerta e frágil.
Bebi da aguardente
que fabricaste,
servida às vezes
numa leiteira.
Mas sobretudo
senti o susto
de tuas surpresas.
E é por isso
que quando a mim
alguém pergunta
tua profissão
não digo nunca
que és pintor
ou professsor
(palavras pobres
que nada dizem
de tais surpresas);
respondo sempre:
- É inventor,
trabalha ao ar livre
de régua em punho,
janela aberta
sobre a manhã.
.
(retirado, com a devida vénia, de "Um pouco de Poesia")

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Henry Longfellow

.

Henry Wadsworth Longfellow :

.

.



Excelsior ! :

Henry Wadsworth Longfellow
(Ballads and Other Poems 1842)
Tradução para o português de Alexei Bueno


A noite com suas sombras cai depressa;
A aldeia alpina aos poucos atravessa
Um jovem, que ergue, em meio à neve em sanha,
Uma bandeira, com a divisa estranha,
Excelsior!
Sua cor é triste, mas sua vista alçada
Lembra uma espada desembainhada,
E a sua voz qual clarim de prata erguida
Lança os sons de uma língua nunca ouvida,
Excelsior!
Casas felizes ele vê, brilhando
Ao fogo quente, familiar e brando;
Mais ao alto espectral geleira ao vento,
E de seus lábios se escapa um lamento,
Excelsior!
“Não tentes a Passagem”, diz-lhe um velho,
“Já ergue a tormenta o seu manto vermelho,
Rugem as águas sem olhar que as sonde!”
E a alta voz de clarim só lhe responde,
Excelsior!
“Oh! fica”, diz-lhe a virgem, “e em meu seio
Deita a fronte cansada sem receio!”
Nubla-lhe um pranto o olhar azul erguido,
Mas ele ainda responde, com um gemido,
Excelsior!
“Teme os galhos na treva borrascosa!
Teme a uivante avalanche pavorosa!”
São o último boa-noite de quem fica,
E uma voz, longe no alto, lhes replica,
Excelsior!
Nascido o sol, no divino resguardo
Dos santos ermitões de São Bernardo
Quando o salmo de sempre é repetido,
Uma voz grita no ar estremecido,
Excelsior!
Na neve um viajor, semi-enterrado,
Pela matilha fiel é encontrado,
Tendo em sua mão de gelo branca e lisa
A bandeira, com a estranha divisa,
Excelsior!
Lá, onde a noite fria e cinza pousa,
Sem vida, mas tão belo, ele repousa,
E do céu, sereníssima e clemente,
Desce uma voz, como estrela cadente,
Excelsior!
.
(retirado, com a devida vénia, de "Espaço de Joao Azevedo Junior")

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Eugénio Andrade


Eugénio Andrade.Eugénio de Andrade :







.

.
Adeus :Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, 
e o que nos ficou não chega 
para afastar o frio de quatro paredes. 
Gastámos tudo menos o silêncio. 
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, 
gastámos as mãos à força de as apertarmos, 
gastámos o relógio e as pedras das esquinas 
em esperas inúteis. 

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. 
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro; 
era como se todas as coisas fossem minhas: 
quanto mais te dava mais tinha para te dar. 

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. 
E eu acreditava. 
Acreditava, 
porque ao teu lado 
todas as coisas eram possíveis. 

Mas isso era no tempo dos segredos, 
era no tempo em que o teu corpo era um aquário, 
era no tempo em que os meus olhos 
eram realmente peixes verdes. 
Hoje são apenas os meus olhos. 
É pouco, mas é verdade, 
uns olhos como todos os outros. 

Já gastámos as palavras. 
Quando agora digo: meu amor
já se não passa absolutamente nada. 
E no entanto, antes das palavras gastas, 
tenho a certeza 
que todas as coisas estremeciam 
só de murmurar o teu nome 
no silêncio do meu coração. 

Não temos já nada para dar. 
Dentro de ti 
não há nada que me peça água. 
O passado é inútil como um trapo. 
E já te disse: as palavras estão gastas. 

Adeus. 
(retirado, com a devida vénia, de "Citador")

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Cyrano Bergerac

.
Cyrano Bergerac :
.



"É que é hora de abrir-te o coração!
Não de usar de palavras delicadas
mas de deixar que jorrem liberadas
as incontidas águas da paixão.
Sejamos simples sob essas estrelas
que pairam sob nós perenemente.
As palavras mais simples são as mais belas
porque transmitem o que a pessoa sente
no mais fundo de si, mas mesmo elas
não servem pra dizer inteiramente
deste amor que nasceu timidamente
mas com a força do vento e das procelas!
Este amor que, a fugir da claridade
escondeu-se de todos, nas vielas
escondeu-se nos becos, nas tavernas
e oculto te seguiu pela cidade,
numa manhã de maio das mais belas
e soube reparar, no seu cuidado
quando um dia mudaste o penteado
e sobraçavas flores amarelas...
o coração batia e era essa
a única fala desse amor que agora,
nesta noite bendita se confessa.
E esta confissão te faz tremer!
Esperança tão grande eu nunca tive!
Agora eu sei pra quê que um homem vive.
E só me resta por que sei, morrer.
E é pelas palavras que te digo,
que estremeces entre ramos azuis
E, exitas atraída para mim
e essa tua mão feita de carne e luz
quer descer pelas ramas do jasmim"
.
(retirado, com a devida vénia, de "Acros the River")

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - José Gomes Ferreira

.
José Gomes Ferreira :
.

Dá-me a tua mão :Dá-me a tua mão. 

Deixa que a minha solidão 
prolongue mais a tua 
— para aqui os dois de mãos dadas 
nas noites estreladas, 
a ver os fantasmas a dançar na lua. 

Dá-me a tua mão, companheira, 
até o Abismo da Ternura Derradeira. 
.(retirado, com a devida vénia, de "Citador")

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Robert Burns

.

Robert Burns :

.
.



Uma rosa vermelha, vermelha :

O meu Amor é  como uma rosa vermelha, vermelha
 Ele é realçado em Junho:
O meu Amor é como a melodia,
Ele é docemente tocado em sintonia.

Como tu és justa, minha moça bonita,
Tão profundo no amor eu sou;
E eu vou te amar ainda, minha cara,
Até que muitos mares se sequem.

Até uma seca de muitos mares, minha cara,
E as rochas derreterem com o sol;
E eu vou te amar ainda, minha cara,
Enquanto as areias da vida passarem.

E farei de ti meu único amor!
E farei de ti o meu tempo!
E eu virei outra vez, meu Amor,
Além de 10.000 milhas! 

.
(retirado, com a devida vénia, de "Le raffinement de l´art")

domingo, 17 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Manuel Bandeira

.

Manuel Bandeira :

.

.



Os Sapos :

.

Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos. 
A luz os deslumbra. 
.
 Em ronco que aterra, 
Berra o sapo-boi: 
—Meu pai foi à guerra! 
—Não foi! —Foi! —Não foi! 
.
O sapo-tanoeiro, 
Parnasiano aguado,
Diz: — Meu cancioneiro 
É bem martelado. 
.
Vede como primo 
Em comer os hiatos! 
Que arte! E nunca rimo 
Os termos cognatos! 
.
O meu verso é bom 
Frumento sem joio 
Faço rimas com 
 Consoantes de apoio. 
.
Vai por cinqüenta anos 
Que lhes dei a norma: 
Reduzi sem danos 
A formas a forma. 
.
Clame a saparia 
Em críticas céticas: 
Não há mais poesia, 
 Mas há artes poéticas... 
.
Urra o sapo-boi: 
—Meu pai foi rei 
—Foi! —Não foi! 
—Foi! —Não foi! 
.
Brada em um assomo 
O sapo-tanoeiro: 
— A grande arte é como 
Lavor de joalheiro. 
.
Ou bem de estatuário. 
Tudo quanto é belo, 
Tudo quanto é vário, 
Canta no martelo. 
.
Outros, sapos-pipas 
(Um mal em si cabe), 
Falam pelas tripas: 
—Sei! —Não sabe! —Sabe! 
.
Longe dessa grita, 
Lá onde mais densa 
A noite infinita 
Verte a sombra imensa; 
.
Lá, fugindo ao mundo, 
Sem glória, sem fé, 
No perau profundo 
E solitário, é 
.
Que soluças tu, 
Transido de frio, 
Sapo-cururu 
Da beira do rio.
.
(retirado, com a devida vénia, de "Mensagens com Amor")

sábado, 16 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Alphonse de Lamartine

.

Alphonse de Lamartine :

.
.
 O Outono 


Salve, bosque coroado dum resto de verdura! 
Folhagens amarelentas na relva esparsa; 
Salve, derradeiros dias! O luto da natureza 
Convém à dor e agrada aos meus olhos. 

Sigo com passo sonhador o atalho solitário; 
Amo rever ainda, pela última vez, 
Este sol pálido, do qual a tênue luz 
Mal me chega aos pés na obscuridade dos bosques. 

Sim nestes dias de outono ,onde a natureza expira, 
Encontro mais atrativos em seus olhares velados; 
De um amigo é o adeus, é o derradeiro sorrsio 
que dos lábios a morte vai fechar para sempre. 

Assim prestes a deixar da vida o horizonte, 
Em meus longos dias chorando a desvanecida esperança, 
Mais uma vez retorno e, com um olhar de inveja, 
Estes bens dos quais não desfrutei contemplo. 

Terra, sol, vales, bela e doce natureza, 
Uma lágrima vos devo à beira do meu túmulo. 

O ar perfumado está! tão pura é a luz! 
Aos olhos dum moribundo é mais belo o sol! 

Agora desejava, até ao fundo esvaziar, 
misturado de néctar e de fel, este cálice: 
Ao fundo desta taça, uma gota de mel! 

Quem sabe o futuro reservasse ainda 
Uma vez mais a felicidade da qual se perde a esperança! 
Quiçá, na multidão, uma alma que não conheço 
Minh’alma teria compreendido e uma resposta me daria !... 

Cai a flor entregando ao zéfiro seus perfumes; 
À vida, ao sol, apenas sobram adeuses; 
Eu, morro, sim, e minh’alma, no instante em que expira, 
Qual plangente e melodioso som se exala.. 
.
(retirado, com a devida vénia, de "Letra Viva")