sábado, 16 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Alphonse de Lamartine

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Alphonse de Lamartine :

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 O Outono 


Salve, bosque coroado dum resto de verdura! 
Folhagens amarelentas na relva esparsa; 
Salve, derradeiros dias! O luto da natureza 
Convém à dor e agrada aos meus olhos. 

Sigo com passo sonhador o atalho solitário; 
Amo rever ainda, pela última vez, 
Este sol pálido, do qual a tênue luz 
Mal me chega aos pés na obscuridade dos bosques. 

Sim nestes dias de outono ,onde a natureza expira, 
Encontro mais atrativos em seus olhares velados; 
De um amigo é o adeus, é o derradeiro sorrsio 
que dos lábios a morte vai fechar para sempre. 

Assim prestes a deixar da vida o horizonte, 
Em meus longos dias chorando a desvanecida esperança, 
Mais uma vez retorno e, com um olhar de inveja, 
Estes bens dos quais não desfrutei contemplo. 

Terra, sol, vales, bela e doce natureza, 
Uma lágrima vos devo à beira do meu túmulo. 

O ar perfumado está! tão pura é a luz! 
Aos olhos dum moribundo é mais belo o sol! 

Agora desejava, até ao fundo esvaziar, 
misturado de néctar e de fel, este cálice: 
Ao fundo desta taça, uma gota de mel! 

Quem sabe o futuro reservasse ainda 
Uma vez mais a felicidade da qual se perde a esperança! 
Quiçá, na multidão, uma alma que não conheço 
Minh’alma teria compreendido e uma resposta me daria !... 

Cai a flor entregando ao zéfiro seus perfumes; 
À vida, ao sol, apenas sobram adeuses; 
Eu, morro, sim, e minh’alma, no instante em que expira, 
Qual plangente e melodioso som se exala.. 
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(retirado, com a devida vénia, de "Letra Viva")

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