domingo, 17 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Manuel Bandeira

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Manuel Bandeira :

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Os Sapos :

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Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos. 
A luz os deslumbra. 
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 Em ronco que aterra, 
Berra o sapo-boi: 
—Meu pai foi à guerra! 
—Não foi! —Foi! —Não foi! 
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O sapo-tanoeiro, 
Parnasiano aguado,
Diz: — Meu cancioneiro 
É bem martelado. 
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Vede como primo 
Em comer os hiatos! 
Que arte! E nunca rimo 
Os termos cognatos! 
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O meu verso é bom 
Frumento sem joio 
Faço rimas com 
 Consoantes de apoio. 
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Vai por cinqüenta anos 
Que lhes dei a norma: 
Reduzi sem danos 
A formas a forma. 
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Clame a saparia 
Em críticas céticas: 
Não há mais poesia, 
 Mas há artes poéticas... 
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Urra o sapo-boi: 
—Meu pai foi rei 
—Foi! —Não foi! 
—Foi! —Não foi! 
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Brada em um assomo 
O sapo-tanoeiro: 
— A grande arte é como 
Lavor de joalheiro. 
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Ou bem de estatuário. 
Tudo quanto é belo, 
Tudo quanto é vário, 
Canta no martelo. 
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Outros, sapos-pipas 
(Um mal em si cabe), 
Falam pelas tripas: 
—Sei! —Não sabe! —Sabe! 
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Longe dessa grita, 
Lá onde mais densa 
A noite infinita 
Verte a sombra imensa; 
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Lá, fugindo ao mundo, 
Sem glória, sem fé, 
No perau profundo 
E solitário, é 
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Que soluças tu, 
Transido de frio, 
Sapo-cururu 
Da beira do rio.
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(retirado, com a devida vénia, de "Mensagens com Amor")

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