sábado, 23 de novembro de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - João Cabral de Melo Neto

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João Cabral de Melo Neto :

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A Vicente do Rego Monteiro (João Cabral de Melo Neto - 1920-1999)

Eu vi teus bichos
mansos e domésticos:
um motociclo
gato e cachorro.
Estudei contigo
um planador,
volante máquina,
incerta e frágil.
Bebi da aguardente
que fabricaste,
servida às vezes
numa leiteira.
Mas sobretudo
senti o susto
de tuas surpresas.
E é por isso
que quando a mim
alguém pergunta
tua profissão
não digo nunca
que és pintor
ou professsor
(palavras pobres
que nada dizem
de tais surpresas);
respondo sempre:
- É inventor,
trabalha ao ar livre
de régua em punho,
janela aberta
sobre a manhã.
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(retirado, com a devida vénia, de "Um pouco de Poesia")

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