terça-feira, 30 de abril de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Paul Verlaine

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 "Chanson d'automne" -  Paul Verlaine :

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Canção do outono :
Os longos sons
dos violões,
     pelo outono
me enchem de dor
e de um langor
     de abandono.
E choro, quando
ouço, ofegando,
     bater a hora,
lembrando os dias
e as alegrias
     e ais de outrora.
E vou-me ao vento
que, num tormento,
     me transporta
de cá p’ra lá,
como faz à
     folha morta.
tradução de Guilherme de Almeida

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Tonino Guerra

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Tonino Guerra :

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CANTO NONO :


Terá chovido durante cem dias e a água infiltrada
pelas raízes das ervas
chegou à biblioteca banhando as palavras santas
guardadas no convento.


Quando tornou o bom tempo,
Sajat-Novà o frade mais jovem
levou os livros todos por uma escada até ao telhado
e abriu-os ao sol para que o ar quente
enxugasse o papel molhado.


Um mês de boa estação passou
e o frade de joelhos no claustro
esperava dos livros um sinal de vida.
Uma manhã finalmente as páginas começaram
a ondular ligeiras no sopro do vento
parecia que tinha chegado um enxame aos telhados
e ele chorava porque os livros falavam.

domingo, 28 de abril de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Charlotte Brontë

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Charlotte Bronte :
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I’ve been wandering in the greenwoods :
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I’ve been wandering in the greenwoods 
And mid flowery smiling plains 
I’ve been listening to the dark floods 
To the thrushes thrilling strains
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I have gathered the pale primrose 
And the purple violet sweet 
I’ve been where the Asphodel grows 
And where lives the red deer fleet.
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I’ve been to the distant mountain, 
To the silver singing rill 
By the crystal murmering mountain, 
And the shady verdant hill.
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I’ve been where the poplar is springing 
From the fair Inamelled ground 
Where the nightingale is singing 
With a solemn plaintive sound.


sábado, 27 de abril de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - José Gorostiza

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La orilla del mar- José Gorostiza :

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À beira-mar :
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Não é água nem areia
A beira do Mar.
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A água sonora
De simples espuma,
A água não forma
Por si, beira-mar.
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E porque descansa
Em brando lugar,
Não é água nem areia
A beira do mar.
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Às coisas discretas
Amáveis e meras;
Juntam-se outras coisas
Como as beira-mares
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Os lábios também
Se querem beijar.
Não é água nem areia 
A beira do mar.
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Eu tão só me vejo
Como que morto
Só, desolado
Como num deserto.
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Venha-me o choro
Pois devo penar.
Não é água nem areia
A beira do mar.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - William Butler Yeats

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"Leda and the Swan" - William Butler Yeats :

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LEDA E O CISNE :
Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.
Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?
Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.

Capturada assim, 
E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?


quinta-feira, 25 de abril de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - António Botto

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O Mais Importante na Vida - António Botto :

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O mais importante na vida
É ser-se criador – criar beleza.

Para isso,
É necessário pressenti-la
Aonde os nossos olhos não a virem.

Eu creio que sonhar o impossível
É como que ouvir a voz de alguma coisa
Que pede existência e que nos chama de longe.

Sim, o mais importante na vida
É ser-se criador.

E para o impossível
Só devemos caminhar de olhos fechados
Como a fé e como o amor

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Sully Prudhomme

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 Sully Prudhomme :
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O VASO PARTIDO 

O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe sutiu, roçou-o apenas
Pois nem um ruído revelou.
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Mas a fenda persistente,
Mordendo-o sempre sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.
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A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia,
Não toquem, não, que se quebrou.
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Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor,
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;
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Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal, fino e profundo,
Já se quebrou: não toquem, não. 
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   Trad. Guilherme de Almeida

terça-feira, 23 de abril de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - César Vallejo

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César Vallejo :

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OS PASSOS DISTANTES :

Dorme meu pai. E seu semblante augusto
parece um aprazível coração;
está agora tão doce...
se há nele algo de amargo, serei eu.

Há solidão no lar; nele se reza,
e notícia dos filhos não se tem.
Meu pai desperta, ausculta
a fuga para o Egito, o estancador adeus.
Está agora tão perto;
se algo distante há nele, serei eu.

E minha mãe passeia no quintal,
saboreando um sabor já sem sabor.
Está agora tão suave,
tão asa, tão saída, tão amor.

Há solidão no lar, assim sem bulha,
sem notícias, sem verde, sem infância.
E se há algo quebrado nesta tarde,
e que desce e que range,
são dois velhos caminhos brancos, curvos.
Por eles vai meu coração a pé.      
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TRADUÇÃO DE IVO BARROSO


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Wilfred Owen

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"Anthem for Doomed Youth" - Wilfred Owen :

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Hino a Uma Juventude Condenada :
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Que sinos dobrarão por aqueles que morrem como gado?
-Só a fúria monstruosa dos canhões.
Só os rifles com um tartamudear matraqueado
Podem silenciar suas rápidas orações.
Sem galhofas agora para eles; nem preces nem sinos;
Nem o lamento das vozes salvo o coro,-
O louco coro agudo dos tiros assassinos;
E em tristes lares clarins os chamam como choro.
Que velas podem elevar as suas almas?
Não nas mãos de garotos, e sim nos olhos seus
Haverá de luzir o sagrado brilho do adeus.
Suas mortalhas serão femininas frontes alvas;
Suas flores, o conforto de uma mente paciente,
E cada anoitecer, cortinas fecham-se lentamente.
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Tradução de Gustavo Gouveia


domingo, 21 de abril de 2013

Um Pensamento por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Luis Felipe Angell

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Luis Felipe Angell (Sofocleto) :
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"A um escritor só se pode julgar quando tenham morrido todos os críticos de sua época"
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"A liberdade consiste em não usar relógio."
"Vivemos numa época onde nada é tão indispensável como as coisas supérfluas."
"Escrever é uma maneira de falar, sem sermos interrompidos."
"O saber é a parte mais considerável da felicidade."
"Inflação é a arte de falsificar a moeda por conta do Estado."
"O êxito perde o sabor quando todos o reconhecem."
"Amigo verdadeiro é aquele que nos quer apesar de nada."
"O melhor amigo do homem é outro cão."
"Todos os amores são eternos. O que muda é a pessoa."
"Quando a gente se apaixona pensa em tudo menos no que está a pensar."

sábado, 20 de abril de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Ferdinand Freiligrath

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O lieb solang du lieben kannst - Ferdinand Freiligrath :

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¡Oh, ama, ama tanto como puedas! :
¡Oh, ama, ama tanto como puedas!
¡Oh, ama, ama tanto como debas!
Llegará la hora, llegará la hora
En que sobre las tumbas te lamentarás.

Asegúrate de que tu corazón arda,
Y sostén y mantén el amor
Tanto como el otro corazón ardientemente lata
Por tu amor.

Y si alguien te comparte su alma
Correspóndele lo mejor que puedas
Dale alegría a cada hora,
¡No le dejes pasar penas!

Y vigila tus palabras con cuidado,
¡Aparta el verbo caustico de tus labios!
Querido Dios, no quise herirlo,
Pero el amado retrocede y se lamenta.
¡Oh, ama, ama tanto como puedas!
¡Oh, ama, ama tanto como debas!
Llegará la hora, llegará la hora
En que sobre las tumbas te lamentarás.

Te postrarás junto a la tumba
Y tus ojos estarán tristes y húmedos,
-Nunca volverás a ver otra vez a tu amado,
Sólo la hierba alta y húmeda del camposanto.

Dirás: mírame desde allí abajo,
¡Soy quien se lamenta junto a tu tumba!
¡Perdona mis desaires!
¡Querido Dios, no quise herirle!

Aunque el amado no te vea o escuche
Yace más allá de tu consuelo;
Los labios, que tantas veces besaste, hablan
No de nuevo: ¡Te perdoné hace mucho tiempo!

Sin duda, él te perdonó,
Pero las lágrimas que derramaría copiosamente
Sobre ti y tu palabra impensada
-¡Tranquilízate!- él descansa, ya ha fallecido.

¡Oh, ama, ama tanto como puedas!
¡Oh, ama, ama tanto como debas!
Llegará la hora, llegará la hora
En que sobre las tumbas te lamentarás.
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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Octavio Paz

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Octavio Paz :
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Movimento :
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Se tu és a égua de âmbar 
                  eu sou o caminho de sangue 
Se tu és o primeiro nevão 
                  eu sou quem acende a fogueira da madrugada 
Se tu és a torre da noite 
                  eu sou o cravo ardendo em tua fronte 
Se tu és a maré matutina 
                  eu sou o grito do primeiro pássaro 
Se tu és a cesta de laranjas 
                  eu sou o punhal de sol 
Se tu és o altar de pedra 
                  eu sou a mão sacrílega 
Se tu és a terra deitada 
                  eu sou a cana verde 
Se tu és o salto do vento 
                  eu sou o fogo oculto 
Se tu és a boca da água 
                  eu sou a boca do musgo 
Se tu és o bosque das nuvens 
                  eu sou o machado que as corta 
Se tu és a cidade profunda 
                  eu sou a chuva da consagração 
Se tu és a montanha amarela 
                  eu sou os braços vermelhos do líquen 
Se tu és o sol que se levanta 
                  eu sou o caminho de sangue 
     .
         Octavio Paz, in "Salamandra" 
 Tradução de Luis Pignatelli

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - Stéphane Mallarmé

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Stéphane Mallarmé  :

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Brisa marinha (Brise marine) :
A carne é triste e eu, aí! já li todos os livros.
Fugir! Fugir p’ra longe. Oiço as aves aos gritos
Ébrias na espuma ignota e sob o céu, em bando!
Nada, nem vãos jardins nos olhos se espelhando
Retém meu coração que se embebe de mar,
Oh noite! nem a luz da candeia a alumiar
O deserto papel que a brancura defende;
Nem mesmo jovem mãe que seu filho amamente.
Hei-de partir! Vapor em marítimas crises,
Iça o ferro e faz rumo a exóticos países.
Um tédio triste, em cruel e inútil esperar,
Crê no supremo adeus dos lenços a acenar.
Que os mastros, porventura, atraindo presságios,
São os mesmos que um vento inclina nos naufrágios.
Soltos no mar, no mar, sem ilhas nem esteiros.
Mas ouve, coração, cantar os marinheiros.
Tradução de Herculano de Carvalho


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe faria - António Nobre

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A Vida - António Nobre :

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A VidaÓ grandes olhos outomnaes! mysticas luzes! 
Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes! 
Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor 
Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor! 
Ó olhos negros como noites, como poços! 
Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos! 
Ó puros como o céu! ó tristes como levas 
De degredados! 

    Ó Quarta-feira de Trevas! 

Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias: 
Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias, 
Ó velas do perdão! candeias da desgraça! 
Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça! 
Olhos accezos como altares de novena! 
Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna! 
Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas, 
Lume dos que no mar andam botando as linhas... 
Ó pharolim da barra a guiar os navegantes! 
Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes, 
Mais os que vão na diligencia pela serra! 
Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra! 
Ó janellas de treva, abertas no teu rosto! 
Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto! 
Luas d'Estio! Luas negras de velludo! 
Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo 
Quanto ha de branco: véus de noivas, cal 
Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal, 
Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas 
Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas! 
Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas 
Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas! 
Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha... 
Que são em preto os Olhos Verdes de Joanninha... 
Olhos tranquillos e serenos como pias! 
Olhos Christãos a orar, a orar Ave Marias 
Cheias de Luz
! Olhos sem par e sem irmãos, 
Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos! 
Estrellas do pastor! Olhos silenciozos, 
E milagrozos, e misericordiozos, 
Com os teus olhos nunca ha noites sem luar, 
Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar! 
Olhos negros! vós sois duas noites fechadas, 
Ó olhos negros! como o céu das trovoadas... 

Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes! 
De que te serve ter uns astros sem eguaes? 
Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves? 
O mar a uivar! A espuma verde das marés! 
Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja! 
Toda uma cathedral de lutas, uma igreja 
A arder entre clarões de coleras! O orgulho 
Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho! 
Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica! 
Quantos lares sem lume e quanta gente rica! 
Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias! 
Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias! 
Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças! 
Quantos suores sem proveito! quantas taças 
A trasbordar veneno em espumantes boccas! 
Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas, 
N'este macomio do Planeta! E as orfandades! 
E os vapores no mar, doidos, ás tempestades! 
E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia! 
E aquella que não sae por ter uzada a saia! 
E os que sossobram entre a vaidade e o dever! 
E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer! 
Olha essa procissão que passa: um torturado 
De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado, 
E para ser feliz fez todos os esforços... 
Olha as insomnias d'uma noite de remorsos, 
Como dez annos de prizão maior-cellular! 
Olha esse tysico a tossir, á beira-mar... 
Olha o bébé que teve Torre de coral 
De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal, 
Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada, 
Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada! 
Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas... 
Olha essas rugas que têm certos diplomatas! 
Olha esse olhar que têm os homens da politica! 
Olha um artista a ler, soluçando, uma critica... 
Olha esse que não tem talento e o julga ter 
E aquelle outro que o tem... mas não sabe escrever! 
Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade! 
Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade! 
Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos! 
Olha um moço a chorar seus crueis desenganos! 
Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal! 
Olha aquelle que habita uma Torre de sal, 
Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas, 
Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas! 
Olha um velhinho a carregar com a farinha 
E o filho no arraial, jogando a vermelhinha! 
Olha a sair a barra a galera _Gentil_ 
E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil! 
Olha, acolá, no caes uma outra como chora: 
É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!» 
Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão... 

Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção! 

Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos, 
Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos! 
Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama, 
Foi para ver, coitada! essa bola de lama 
Que pelo espaço vae, leve como a andorinha, 
A Terra! 

    Ó meu amor! antes fosses ceguinha...