segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XX

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        O    Q U E    T U    É S

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És aquela que tudo te entristece,
Irrita e amargura, tudo humilha ;
Aquela a quem a Mágoa chamou filha ;
A que aos homens e a Deus nada merece.

Aquela que o sol claro entenebrece,
A quem nem sabe a estrada que ora trilha,
Que nem um lindo amor de maravilha
Sequer deslumbra, e ilumina, e aquece !

Mar Morto sem marés nem ondas largas,
A rastejar no chão, como as mendigas,
Todo feito de lágrimas amargas !

És ano que não teve Primavera...
Ah, Não seres como as outrras raparigas
Ó Princesa Encantada da Quimera !...

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Florbela Espanca
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domingo, 30 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XIII

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       SONETO DE MAL AMAR

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Invento-te   recordo-te   distorço
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.

A palavra desejo incendiada
lambendo a trave mestra do teu corpo
a palavra ciúme atormentada
a provar-me que ainda não estou morto.

E as coisas que eu não disse ? Que não digo :
Meu terraço de ausência   meu castigo
meu pântano de rosas afogadas.

Por ti me reconheço e contradigo
chão das palavras mágoa joio e trigo
apenas por ternura levedadas.

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J.C. Ary dos Santos
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sábado, 29 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XX

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     CANÇÃO DA FELICIDADE
     (Ideal de um Parisiense)

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Felicidade ! Felicidade !
Ai quem ma dera na minha mão !
Não passar nunca da mesma idade,
Dos 25, do quarteirão.

Morar, mui simples, nalguma casa
Toda caiada, defronte o Mar;
No lume, ao menos, ter uma brasa
E uma sardinha pra nela assar...

Não ter fortuna, não ter dinheiro,
Papéis no Banco, nada a render :
Guardar, podendo, num mealheiro
Economia pró que vier.

Ir, pelas tardes, até à fonte
Ver as pequenas a encher e a rir,
E ver entre elas o Zé da Ponte
Um pouco torto, quase a cair.

Não ter quimeras, não ter cuidados
E contentar-se com o que é seu,
Não ter torturas, não ter pecados,
Que, em se morrendo, vai-se pró Céu !

Não ter talento; suficiente
Para na Vida saber andar,
E quanto a estudos saber somente
(Mas ai somente!) ler e contar.

Mulher e filhos ! A Mulherzinha
Tão loira e alegre, Jesus ! Jesus !
E, em nove meses, vê-la choquinha
Como uma pomba, dar outra à luz.

Oh ! grande vida, valha a verdade !
Oh ! grande vida, mas que ilusão !
Felicidade ! Felicidade !
Ai quem me dera na minha mão !

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António Nobre
Paris - 1892
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia

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       P O E S I A S   I

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Dorme sobre o meu seio,
Sonhando de sonhar...
No teu olhar eu leio
Um lúbrico vagar,
Dorme no sonho de existir
E na ilusão de amar.

Tudo é nada, e tudo
Um sonho finge ser.
O ´espaço negro é mudo.
Dorme, e, ao adormecer,
Saibas do coração sorrir
Sorrisos de esquecer.

Dorme sobre o meu seio,
Sem mágoa nem amor...
No teu olhar eu leio
O íntimo torpor
De quem conhece o nada-ser
De vida e gozo e dor.


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Fernando Pessoa
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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XIX

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            P O B R E Z I N H A

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Nas nossas duas sinas tão contrárias
Um pelo outro somos ignorados :
Sou filha de regiões imaginárias,
Tu pisas mundos firmes já pisados.

Trago no olhar visões extraordinárias
De coisas que abracei de olhos fechados...
Em mim não trago nada, como os párias...
Só tenho os astros, como os deserdados...

E das tuas riquezas e de ti
Nada me deste e eu nada recebi,
Nem o beijo que passa e que consola.

E o meu corpo, minh´alma e coração
Tudo em risos pousei na tua mão !...
...Ah ! como é bom, um pobre dar esmola !...

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Florbela Espanca
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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia XVIII

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         S O N E T O S     X I

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Altos pinheiros septuagenários
E ainda empertigados sobre a serra !
Sois os enviados extraordinários,
E embaixadores de El-Rei Pã, na Terra.

À noite, sob aqueles lampadários,
Conferenciais com ele...Há paz? Há guerra?
E tomam notas vossos secretários,
Que o Livro Verde secular encerra.

Hirtos e altos, Tayllerands dos montes !
Tendes a linha, não vergais as fontes
Na exigência da Corte, ou beija-mão !

Voltais aos Homens com desdém a face...
Ai oxalá ! que Pã me despachasse
Adido à vossa estranha Legação !

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António Nobre - 1888
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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XVII

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   LISBON BY NIGHT

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Sexofone   saxofome
aqui jazz a humanidade
sepulcro de pedra pomes
duma pseudo euro-cidade.

Antro de feras criadas
entre manteiga e obuses
cansadíssima corrida
de modernas avestruzes.

Na cave do cio soa
um rumor acutilante
faca-pássaro que voa
em seu espaço percutante.

Sexofone   saxofome
agulha de tédio e ritmo
ninguém ouve   ninguém come
a noite não tem princípio.

Mancebos de longas tranças
enforcados em gravatas
vão depauperando as danças
com os pés aristocratas.

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J. C. Ary dos Santos
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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XVI

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                    S  O  N  E  T  O

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Servem-me os desgostos p´ra meus versos.
Se eles não foram como então poderia
ter este belo prazer de me queixar !

Ter esta exaltação, esta alegria
de saldar a minh´alma com palavras,
demover o meu mal com fantasia...

De todas as fraquezas me redimo,
de todos os desgostos me consolo,
se pela escrita os justifico e os estimo;

se uma teoria explicativa evolo
e em doce verso a metrifico e rimo.
Então dest´arte, a minha mágoa isolo

(ou marco-lhe intervalo ou nova pausa),
que a causa, só, do sofrimento nosso
é não achar do sofrimento a causa.

E é tudo quanto sei, ou quanto posso !

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Mário Saa
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domingo, 23 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XVI

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                   R  U  Í  N  A  S


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Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras !

E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir !
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino das Quimeras !

Deixa tombar meus rútilos castelos !
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar !

Sonhos que tombam ! Derrocada louca !
São como beijos duma linda boca !
Sonhos !... Deixa-os tombar...deixa-os tombar...

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Florbela Espanca
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sábado, 22 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia XV

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              S O N E T O S   IX

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Quando vem Junho e deixo esta cidade,
Batina, Cais, tuberculosos céus,
Vou para o Seixo, para a minha herdade :
Adeus, Cavaco e luar ! Choupos, adeus !

Tomo o regime do Sr. Abade,
E faço as pazes, ele o quer, com Deus.
No seu direito olhar vejo a bondade,
E às capelinhas vou ver os Judeus.

Que homem sem par ! Ignora o que são dores !
Para ele uma ramada é o pálio verde,
Os cachos de uva são as suas flores !

Ao seu passal chama ele o Mundo todo...
Sr. Abade ! olhe que nada perde :
Viva na Paz, longe do lodo.

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António Nobre
Coimbra, 1890
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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XVI

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             A S    F É R I A S


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Era uma rosa azul de água amarrada
um palácio de cheiros   um terraço
e uma jarra de amigos derramada
de casa até ao mar como um abraço.

Era a intensa e clara madrugada
com cigarras dormindo no regaço
e a ampulheta do sono defraudada
no tempo cada dia mais escasso.

Era um país de urzes e lilases
de tardes sonolentas espreguiçando
um aroma de nardos pelo chão

e bandos de meninas e rapazes
corrend  amando  rindo e adiando
a minha inexorável solidão.

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J. C. Ary dos Santos
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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia XV

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              S O N E T O S   I X

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Perdi os meus fantásticos castelos
Como névoa distante que se esfuma...
Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los :
Quebrei as minhas lanças uma a uma !

Perdi minhas galeras entre os gelos
Que se afundaram sobre um mar de bruma...
- Tantos escolhos ! Quem podia vê-los ?
Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma !

Perdi a minha taça, o meu anel,
A minha cota de aço, o meu corcel,
Perdi meu elmo de oiro e pedrarias...

Sobem-me aos lábios súplicas estranhas...
Sobre  meu coração pesam montanhas...
Olho assombrada as minhas mãos vazias...


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Florbela Espanca
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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XV

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             S O N E T O S    I V

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Ó Virgens que passais, ao sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar !
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido Lar.

Cantai-me, nessa voz omnipotente,
O Sol que tomba, aureolando o Mar,
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a Graça, a formusura, o luar !

Cantai ! cantai as límpidas cantigas !
Das ruínas do meu Lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

Que eu vi morrer num sonho, como um ai...
Ó suaves e frescas raparigas,
Adormecei-me nessa voz...Cantai !

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António Nobre
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terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XIV

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          N O N A    S I N F O N I A

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É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas  sagradas  impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.

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J.C. Ary dos Santos
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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XIV

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          EM BUSCA DO AMOR


O meu Destino disse-me a chorar :
"Pela estrada da Vida vai andando,
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás-de encontrar."

Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas do meu sonho desfiando...
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando...

Mesmo a um velho eu perguntei : "Velhinho,
Viste o Amor acaso no teu caminho ?"
E o velho estremeceu..olhou...e riu...

Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos pra trás desanimados...
E eu paro a murmurar : "Ninguém o viu !..."

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Florbela Espanca
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domingo, 16 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XIII

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                S A N T A    I R I A

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Num rio virginal as águas claras e mansas,
Pequenino baixel, a Santa vai boiando.
Pouco e pouco, dilui-se o oiro das suas tranças
E, diluindo, vê-se as águas aloirando.

Circunda-a um esplendor de verdes Esperanças.
Unge-lhe a fonte o luar (os Santos Óleos) brando.
E, com a Graça etérea e meiga das crianças,
Formosa Iria vai boiando, vai boiando...

Os cravos e os jasmins abrem-se à luz da Lua,
E, ao verem-na passar, fantástica branquinha,
Murmuram entre si : "É um mármore que flutua !"

Ela entra, enfim, no Oceano... E escuta-se, ao luar,
A mãe do Pescador, rezando a ladainha
Pelos que andam, Senhor! sobre as águas do Mar...

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António Nobre
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sábado, 15 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XIII

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      A U S Ê N C I A

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Ausência é viver a vida
Longe de nós...É lembrar
Com a alma adormecida
Pra não sofrer, se acordar.

Ser amado e ser ausente
Pode lá ser ?! Pois há quem
Sendo amado e amando tente
A distância, o mar, o além ?

É como andar degredado
Longe da própria ventura,
Ser ausente e ser amado...

É tomar nas mãos a dor,
Transformá-la em formosura,
Tornar o Amor mais Amor...

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Augusto Casimiro
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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia XII

          

               É  V  O  R  A

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Évora ! Ruas ermas sob os céus
Cor de violetas roxas...Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades !

Tenho corrido em vão tantas cidades !
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades !

Évora !... O teu olhar...o teu perfil...
Tua boca sinuosa, um mês de Abril,
Que o coração no peito me alvoroça !

...Em cada viela o vulto de um fantasma...
E a minh´alma soturna escuta e pasma...
E sente-se passar menina e moça...

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Florbela Espanca
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia

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             S O N E T O S     V I I I


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Poveirinhos ! meus velhos Pescadores !
Na Água quisera com Vocês morar :
Trazer o grande gorro de três cores,
Mestre da lancha Deixem-Nos Passar !

Farme-ia outro, que os vossos interiores,
De há tantos tempos, devem já estar
Calafetados pelo breu das Dores,
Como esses pongos em que andais no Mar !

Ó meu Pai, não ser eu dos Poveirinhos !
Não seres tu, para eu ser, poveiro
Mail´Irmão so "Senhor de Matosinhos !"

No altar do mar, às trovoadas, entre gritos,
Prometermos, si o barco fôri intieiro,
Nossa bela à Sinhora dos Aflitos !

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António Nobre
Leça 1889
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XII

    CANÇÃO DA FLOR

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Sou um milagre da luz,
Quase do espírito. Eu sou
A redenção duma cruz :

A raiz que se enterrou
Trabalha a negra fundura ?
Fez-se perfume, e voou !

Sou alma, feita escultura
De carne. Sendo matéria,
Mais sou alma isenta e pura.

Sou quase uma vida etérea.
Sorriso de amor e graça,
Seja, embora ! triste e séria.

Sou como um vento que passa;
E às vezes encho um deserto :
Consolo, ameigo a desgraça.

Asas não tenho : decerto
Porque a terra me quis tanto
Que me prendeu mais de perto...

Sou a cor tornada canto :
 - Escala de luz e gama
Da voz da cor, riso e pranto.

Sou, aqui, alegre chama;
Além, bruma anoitecente
De onde a sombra se derrama.

Nasci com o sol-nascente;
Amei com o meio-dia;
Depois...Morreu, ao poente,
A vida de que eu vivia.

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António Corrêa d´Oliveira
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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia XI

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               T E U S   O L H O S

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Olhos do meu amor ! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados !
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros :
Meua anéis, minhas rendas, meus brocados.

Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meu oiros
Que trouxe d´Além-Mundos ignorados !

Olhos do meu Amor ! Fontes...cisternas..
Enigmáticas campas medievais...
Jardins de Espanha...catedrais eternas...

Berço vindo do Céu à minha porta...
Ó meu leito de núpcias irreais !...
Meu sumptuoso tumulo de morta !...

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Florbela Espanca
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - X

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         S O N E T O S  - V

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Íamos sós pela floresta amiga,
Sob o incenso da Lua, que se evola,
Olhos no Céu, modesta rapariga !
Como as crianças ao sair da escola.

Em teus olhos já meigos de fadiga,
Semicerrados como o olhar da rola,
Eu ia lendo essa balada antiga
Duns noivos mortos ao cingir da estola...

A Lua-a-Branca, que é tua Avozinha,
Cobria com os seus os teus cabelos
E dava-te um aspecto de velhinha !

Que linda eras, o luar que o diga !
E eu compondo estes versos, tu a lê-los,
E ambos cismando na floresta amiga...

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António Nobre - 1884
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domingo, 9 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - IX

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       A U T O - R E T R A T O

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Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
marciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas as partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.


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J. C. Ary dos Santos
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sábado, 8 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - VIII

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        A   N O S S A    C A S A


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A nossa casa, Amor, a nossa casa !
Onde está ela, Amor, que não a vejo ?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo !

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo ?
O brando ninho onde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa ?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos,
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num país de ilusão que nunca vi...
E que eu moro - tão bom !" - dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...

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Florbela Espanca
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sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - VI

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          S O N E T O S    VI

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Meus dias de rapaz, de adolescente,
Abrem a boca a bocejar, sombrios :
Deslizam vagarosos, como os Rios,
Sucedem-se uns aos outros, igualmente.

Nunca desperto de manhã, contente.
Pálido sempre com os lábios frios,
Ora, desfiando os meus rosários pios...
Fora melhor dormir, eternamente !

Mas não ter eu aspirações vivazes,
E não ter como têm os mais rapazes,
Olhos boiando em sol, lábios vermelho !

Quero viver, eu sinto-o, mas não posso :
E não sei, sendo assim enquanto moço,
O que serei, então, depois de velho.

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António Nobre - 1889
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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - V

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     O POEMA ORIGINAL


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Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de se ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos   quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

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J. C. Ary dos Santos
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Uma Poesia por dia, nem sabe o bem quelhe fazia - V

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            A   U M   L I V R O

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No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer !
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que sinto, sem poder dizer !

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh´alma !
O livro que me deste é meu, e salma
As orações que choro e rio e canto !...

Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que tu dizes !... Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto !...

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Florbela Espanca
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 .
Picareta Escribante

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia IV

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          S O N E T O   I I I

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Na praia lá da Boa Nova, um dia,
Edifiquei (foi esse o grande mal)
Alto Castelo, o que é a fantasia,
Todo de lápis-lazúli e coral !

Naquelas redondezas não havia
Quem se gabasse de um domínio igual :
Oh Castelo tão alto ! parecia
O território de um Senhor feudal !

Um dia (não sei quando, nem sei donde)
Um vento seco do Deserto e Spleen
Deitoi por terra, ao pó que tudo esxconde,

O meu condado, o meu condado, sim !
Porque eu já fui um poderoso Conde,
Naquela idade em que se é conde assim...


.
António Nobre
Porto, 1887
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segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia III

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             C A R A V E L A S


Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar ! Já me perdi !
Dum estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada !

Se eu sempre fui assim este Mar morto :
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonho se rasgaram !

Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que deitei ao Mar !
As que eu lancei à vida, e não voltaram !...

.
Florbela Espanca
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sábado, 1 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia II

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                 MENINO E MOÇO


Tombou da haste a flor da infância alada.
Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim :
Voou aos Céus a pomba enamorada
Que dantes estendia as asas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,
E que era sempre dia, e nunca tinha fim
Essa visão de luar que vivia encantada,
Num castelo com torres de marfim !

Mas, hoje as pombas de oiro, aves da minha infância,
Que me enchiam de lua o coração, outrora,
Partiram e no Céu evolam-se, a distância !

Debalde clamo e choro, erguendo aos Céus maus ais :
Voltam na asa do Vento os ais que a alma chora,
Elas, porém, Senhor ! elas não voltam mais...

.
António Nobre
Leça, 1885