quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Uma Poesia por dia, nem sabe o bem que lhe fazia - XII

    CANÇÃO DA FLOR

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Sou um milagre da luz,
Quase do espírito. Eu sou
A redenção duma cruz :

A raiz que se enterrou
Trabalha a negra fundura ?
Fez-se perfume, e voou !

Sou alma, feita escultura
De carne. Sendo matéria,
Mais sou alma isenta e pura.

Sou quase uma vida etérea.
Sorriso de amor e graça,
Seja, embora ! triste e séria.

Sou como um vento que passa;
E às vezes encho um deserto :
Consolo, ameigo a desgraça.

Asas não tenho : decerto
Porque a terra me quis tanto
Que me prendeu mais de perto...

Sou a cor tornada canto :
 - Escala de luz e gama
Da voz da cor, riso e pranto.

Sou, aqui, alegre chama;
Além, bruma anoitecente
De onde a sombra se derrama.

Nasci com o sol-nascente;
Amei com o meio-dia;
Depois...Morreu, ao poente,
A vida de que eu vivia.

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António Corrêa d´Oliveira
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